quinta-feira, 7 de abril de 2016

LUÍS SEPÚLVEDA




O título original desta publicação chama-se, na realidade, Historias Marginales – Histórias Marginais – e corresponde, precisamente, ao primeiro título desta colectânea de relatos de extraordinária beleza, a formar um ramalhete de pequenas estórias de heróis desconhecidos que a História relegou para a obscuridade.

Porque a História oficial se ocupa, quase que exclusivamente, do ponto de vista do vencedores.
A inspiração para dar início à escrito a incidir na temática de As Rosas de Atacama – o título escolhido pela editora – surge aquando de uma visita ao campo de concentração de Bergen Belsen onde o autor se depara com a seguinte inscrição:
Eu estive aqui e ninguém contará a minha história.

Uma frase onde está implícita a nota de desespero e cujo impacto só tem comparação com a pungente obra de Münch intitulada O Grito.

O contraponto da situação é dado, mais uma vez, por uma citação – Goebbels, com uma frase que tristemente célebre, que contém em si uma verdade medonha:
Um morto é um escândalo, mil mortos são uma estatística.

Uma frase chave que despoleta a motivação de Sepúlveda para contratacar com as palavras do poeta Guimarães Rosa:

Narrar é resistir.





Desta forma Luís Sepúlveda decide reunir todas estas pequenas histórias marginais com o objectivo de despertar a indignação e a memória. A finalidade é criar a vontade no Homem de mudar o mundo no sentido da evolução do progresso do Humanismo. E do respeito pelo ecossistema que permite a vida no planeta.

Uma obra que é, por isso mesmo e mais do que nunca, actual.
E a forma mais adequada de perseguir o seu objectivo é a de trazer à luz do dia aqueles que permanecem na sombra da História dos que não aparecem nos noticiários, que não têm biógrafos mas apenas uma esquecida passagem pelas ruas da vida.
As Rosas de Atacama é também um livro de relatos que conta as viagens de um andarilho aos locais mais recônditos de todo o mundo sob as condições de vida mais adversas, desde a bela e impiedosa selva do equador e o infernal deserto de Atacama, até à gelada Patagónia perto de Cape Horn ou à Lapónia no Árctico.
Cada relato tem a capacidade de nos deslumbrar ou comover pela forma como LS expõe as contradições inerentes ao desenvolvimento económico que entra muitas vezes em contradição com a sobrevivência humana e das outras espécies no planeta, afastando-se do seu objectivo inicial: a melhoria de qualidade de vida e o bem comum.
Deste autor chileno evidencia-se o talento inquestionável para extrair beleza dos sítios por onde passa quer e das pessoas com as quais trava conhecimento. Algo que se torna fácil para quem tem o dom inato – ou um leque de vivências fora do comum acumuladas durante muitas décadas – de enxergar para além da superfície, transformando muitas vezes a dor em palavras com sabor a poesia…
Ao mesmo tempo o Autor proporciona-nos a lucidez necessária à observação de algumas questões que estão na ordem do dia ao expor o absurdo de contradições quase sempre subjacentes aos jogos de poder dos senhores do mundo, ao referir-se, por exemplo, a uma ilha perdida na ex-Jugoslávia, onde antes coexistiam pacificamente várias etnias e religiões diferentes: Dói-me a ilha perdida e repete-me que os homens que não conhecem a fundo a sua História caem facilmente nas mãos de vigaristas, de falsos profetas e voltam a cometer os mesmos erros.

Os valores da solidariedade humana, da ecologia, da lealdade e da partilha do pão e do vinho das palavras são para Sepúlveda como uma espécie de eucaristia.

O Autor gosta, aliás, de escrever sobre uma mesa de amassar pão, como já foi referido a propósito de Patagónia ExpressUm acto que tem, em si, uma carga simbólica na medida em que são as palavras que lhe garantem a sobrevivência, isto é, que lhe colocam o pão sobre a mesa.
Uma obra composta por mini-contos de duração efémera (em média duas páginas) beleza fulgurante como as rosas do deserto de Atacama onde a escrita é o pão amassado com amor, alegria e…
…lágrimas.


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